Empreender no Brasil é, antes de tudo, um ato de coragem contra a inércia, a burocracia e, muitas vezes, a falta de capital. A história de Flávio Augusto, que transformou um cheque especial de R$ 20 mil na fundação da Wise Up, é a prova de que a chave para sair do zero não é esperar o cenário ideal, mas sim romper com a zona de conforto e aplicar princípios financeiros atemporais.
Parte I: A Dificuldade de Crescer e Sair do Zero no Brasil: Lições de Flávio Augusto
A trajetória de Flávio Augusto não começou com privilégios, mas com a aquisição forçada de resiliência em um cenário econômico e pessoal caótico. Analisar esse início é fundamental para entender que o verdadeiro capital para sair do zero é o conhecimento e a capacidade de se reerguer.
1.1. O Cenário de Crise (1994): O Brasil e a Incerteza Estrutural
O ano de 1994, quando Flávio tomou a decisão de empreender, foi um marco de grande instabilidade e, ao mesmo tempo, de profunda transformação na economia brasileira.
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O Legado do Caos Financeiro: O país vinha de uma sequência de planos econômicos traumáticos, como o Plano Collor (1990), que havia confiscado a poupança dos brasileiros. Isso gerou uma desconfiança generalizada no sistema bancário e minou a cultura de poupança e investimento.
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A Virada do Plano Real: A implantação do Plano Real em julho de 1994 buscava estabilizar a moeda e controlar a hiperinflação. Esse período de transição foi de caos e oportunidade — um ambiente perfeito para quem não tinha nada a perder e estava disposto a correr riscos. Para quem estava no zero, a estabilidade, mesmo que incipiente, abria uma pequena janela de previsibilidade.
Lição Estrutural: A dificuldade de crescer no Brasil é frequentemente ligada à instabilidade crônica e à falta de confiança. A superação exige que o empreendedor entenda o macroambiente e saiba aproveitar as brechas criadas pela mudança.
1.2. A Experiência Inegociável: O Único Capital que Permanece
Apesar de ter voltado “0 a 0” financeiramente, Flávio Augusto tinha um ativo que o ladrão na Venezuela não conseguiu levar: conhecimento e experiência em liderança e vendas.
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A “Escola” com Dinheiro de Terceiros: Flávio reconhece que ter tido a chance de “empreender com dinheiro de terceiros” (trabalhando na gestão da empresa) foi seu maior treinamento. Ele teve a oportunidade de cometer erros, testar estratégias e assumir responsabilidades de direção — uma experiência que seria caríssima ou inacessível para quem tentasse começar sozinho.
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O Valor da Visão Estratégica: A volta para a posição no Rio de Janeiro (diretor) permitiu-lhe desenvolver uma visão de 360 graus do negócio. Ele não olhava mais só para a venda, mas para as “inconsistências na operação”.
Conselho Inclusivo: Para quem está começando com pouco, o ativo mais valioso é o conhecimento especializado e a visão crítica do seu mercado. Não é preciso um alto cargo, mas sim a disciplina de aprender e analisar o “todo” da empresa onde trabalha. Use a experiência do seu emprego atual como seu MBA.
1.3. O Choque da Realidade: Do Conforto à Ruptura
O grande desafio de Flávio Augusto não foi apenas a falta de dinheiro, mas a batalha interna entre o conforto conquistado e o propósito a ser perseguido.
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A Armadilha do Sucesso Relativo: Aos 22 anos, ele havia conquistado um alto salário (equivalente a $3.000, um valor expressivo na época), um cargo de diretor e uma melhor qualidade de vida (saindo da periferia, reduzindo o tempo de trânsito). Essa situação é a “morte lenta” de muitos empreendedores em potencial.
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A Resiliência Ética: A decisão de largar tudo foi motivada pelo conflito ético. Ele não acreditava mais no caminho da empresa e sentia que não podia vender uma ideia que não era mais sua. Isso demonstra que a superação não é apenas financeira; é, primeiramente, uma integridade de propósito.
“Eu preciso então sair para criar um outro caminho.”
1.4. A Dificuldade Final: O Vazio do Capital Inicial
A decisão de ruptura exige capital, e a falta dele é a dificuldade universal.
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O Abismo e o Risco Calculado: Flávio tinha apenas uma pequena fração do capital necessário. Ele não tinha herança, o amigo falhou, e a única saída foi recorrer ao cheque especial de R$ 20 mil (a 12% ao mês!).
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A Superação pela Parceria: O ponto de virada foi a parceria de risco com sua esposa, Luciana. A superação da dificuldade de capital veio do alinhamento de propósito e da divisão do risco. Isso prova que, ao sair do zero, o apoio moral e a divisão do sacrifício podem ser mais importantes que o dinheiro em si.
A Escolha da Coragem: A superação da dificuldade é resumida na escolha entre o alto salário e o plano de vida seguro versus o risco de uma dívida caríssima, mas com a promessa de liberdade e propósito. Flávio escolheu o risco produtivo.
Parte II: Como Superar e Crescer – A Mentalidade da Babilônia para Todos
A verdadeira lição de Flávio Augusto é que o capital inicial pode ser substituído pela disciplina rigorosa e pela resiliência tática. As formas de superar as dificuldades estruturais do Brasil estão ancoradas em princípios que qualquer pessoa pode aplicar, independentemente do salário.
2.1. O Primeiro Ato de Superação: Use o Conhecimento, Não o Dinheiro
O ativo mais valioso de Flávio não foi seu salário de diretor, mas o conhecimento adquirido sobre a operação de uma empresa. Ele viu as “inconsistências”.
Transforme Experiência em Ativo: Sua dificuldade deve ser superada usando a experiência que você já possui. Se você é caixa, aprenda a gestão de estoque. Se é vendedor, entenda o funil de marketing. Seu conhecimento técnico é a sua primeira fonte de capital.
A Visão do Todo: O empreendedor que supera a dificuldade é aquele que não se contenta em cumprir sua função, mas que usa seu tempo para identificar problemas no sistema. A solução desses problemas é a base de um negócio de sucesso.
2.2. A Regra de Ouro (e de Superação): Pague a Si Mesmo Primeiro
Aqui entra o princípio de riqueza mais essencial, universal e acessível do Capítulo 3 de “O Homem Mais Rico da Babilônia”.
O Princípio: O autor ensina a separar, no mínimo, um décimo (10%) de tudo o que se ganha.
Superação na Prática: Não importa se seu salário é alto ou baixo. A dificuldade de construir capital é superada pela disciplina inegociável de fazer com que uma parte do seu esforço comece a trabalhar para você. Este princípio se aplica ao salário mínimo tanto quanto ao salário de diretor. A superação é a prioridade da poupança sobre o consumo.
Meta: Transforme esse 10% guardado no seu “capital Voyage 86” — a semente da alavancagem.
👉 Análise do Princípio da Reserva: A disciplina de guardar é a superação da mentalidade de curto prazo. Clique aqui para entender como construir sua reserva, mesmo com pouco. (Investimento e negócios.)
2.3. A Alavancagem Tática: O Cheque Especial como Ferramenta (e a Lição do Risco)
Flávio Augusto superou a falta de capital com o cheque especial. A lição não é a de um alto limite, mas a da Superação da Dívida.
O Uso Inteligente da Dificuldade: No Brasil, o crédito é caro. A superação é usar essa ferramenta tóxica apenas para a produção e não para o consumo. Flávio transformou uma dívida com juros de 12% ao mês (Passivo) em uma solução para o setup inicial (Ativo).
Superação do Risco: Esta é a coragem de assumir que o retorno do negócio será maior do que o custo do dinheiro. É um risco altíssimo que deve ser calcado no conhecimento (item 2.1).
2.4. Superação em Conjunto: O Poder do Alinhamento de Visão
A dificuldade da solidão empreendedora é superada pela parceria estratégica.
O Erro: Flávio buscou um sócio por capital (o Voyage).
O Acerto: O acerto foi a parceria com Luciana, que concordou em arriscar o limite do seu cheque especial. O que eles compartilhavam não era dinheiro, mas a visão de futuro e o risco.
Conselho para Superar a Solidão: Cerque-se de pessoas que compartilham sua coragem e sua visão, e não apenas seu capital. O alinhamento de propósito vale mais que o alinhamento de patrimônio no início.
2.5. Conselhos Essenciais para Moldar o Pensamento de Superação
O crescimento sustentável no Brasil, saindo do zero, exige a substituição de velhos hábitos por uma mentalidade de superação:
Transforme Crises em Conhecimento: Cada revés (roubo, falha de sócio, crise econômica) deve ser processado como um dado. O conhecimento é o único capital que não pode ser confiscado.
Comece com o Mínimo Necessário: Não espere os R$ 500 mil. A superação é montar o negócio com o que você tem: tempo, conhecimento e 10% da sua renda.
Fuja da Estagnação: O risco de pedir demissão é menor do que o risco de passar a vida infeliz e estagnado (o conflito ético). A escolha pelo desconforto é o caminho para a superação.
Faça o Dinheiro Ser Seu Escravo: Aplique o princípio do Capítulo 3 imediatamente. Cada real que você guarda deve ser um “trabalhador” que gera mais renda, superando o alto custo do crédito no Brasil.
O Capital Inabalável da Resiliência
A história de Flávio Augusto é, em sua essência, sobre a superação do zero duas vezes: primeiro, quando perdeu tudo, e segundo, quando rompeu com o conforto para buscar seu propósito.
Para o empreendedor que começa de baixo no Brasil, a lição é clara: a dificuldade da falta de capital é real, mas o capital inabalável da resiliência, do conhecimento e da disciplina financeira (o 10% guardado) é o que permite alavancar qualquer oportunidade.
A superação não está no tamanho do primeiro salário, mas na coragem de agir mesmo quando tudo parece dizer que você deve ficar parado.